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quarta-feira, 11 de março de 2009

Faço Valer...


Faço valer as curvas escritas.

Fala de Zé:
Faço valer as curvas que estão escritas nas minhas mãos, faço valer o fundo das minhas entranhas, faço valer o coração em espanto, faço valer as descobertas da vida...
No coração de Zé fazia valer tudo, só não fazia valer as não curvas das mãos, as não entranhas vividas, o coração em não espanto, a não descoberta da vida...Porque o coração de Zé era claro, era intenso de fazer valer...
Zé morava na frente de um rio, Zé acreditava em estrelas, acreditava forte, o rio na frente da casa de Zé era grande, Zé tinha medo de nadar no rio, ele achava que não sabia nadar, na verdade, Zé quando era criança, um dia, ele se lembra, que estava com a mãe dele passando por águas límpidas de rio e a atração que ele sentiu foi tão grande pela água que Zé se jogou...O que Zé lembra foi de uma confusão, a mãe chorando, um monte de gente gritando” tira o menino da água, vai se afogar” mas Zé na hora que se jogou sabia nadar, mas, o povo achando que estava protegendo Zé, achou de tirar ele da água e salvá-lo de uma água que ele sabia navegar....Então, o tempo passou...E Zé admirava o rio, mas tinha medo de se afogar...Porque ele acreditou que realmente não sabia nadar.... Zé tinha medo de tentar ousar a colocar um dia os pés no fundo do rio, também Zé tinha um problema a se pensar: pensava que se ele pisasse no rio e tivesse um peixe descansando, ele poderia pisar no bichinho e machucá-lo e tudo que Zé não queria era pisar nos peixes, porque ele os achava doces e lindos...Zé um dia, resolveu ousar longe, ultrapassar seu medo e pisar no fundo do rio, sem machucar os peixes...Mas, para que Zé entrasse no rio ele teria que sentir a temperatura da água, perceber que o escuro do rio por de baixo olhando muito, tem tudo de límpido, saber se safar das piranhas que comem carnes humanas de forma aterrorizante, saber que as plantas pegajosas do rio nem sempre são nojentas.
Zé então parou, olhou, titubeou e se jogou no rio...Zé nadou. Nadou tanto que foi parar em TARTARTAR....Não posso mais contar porque estou em TARTARTAR...E em Tartartar existe sigilo nas ações.
Assinado:
Zé.

Derramar...

DERRAMAR...

Essa foi à história que começou assim e terminou assim:
João olhou para Mariana e viu que ela tinha olhar de mundo grande aguado de azul. Mas, Mariana não sabia que dentro do seu olho, tinha cor de olhos aguados de azul de mundo grande. Seus olhos eram contas azuis que transbordavam sossego. Um dia João quis entrar naqueles olhos, para pertencer ao mundo grande. João era magro, seco e sem aparência. João não sabia nada de mulher, João não sabia nada de ternura, João não sabia nada da vida. João não sabia nada de nada. Nada de nada uma virgula, João sabia de querer muito Mariana.
Mas, Mariana não sabia do desejo egoísta de João, não sabia que João a queria para ser dono dela. O que acontecia para angustiar João era que Mariana tinha olhos derramados para Pedro.
Pedro era alto, grande e forte. Mas Pedro, que era alto, grande e forte queria Tatiana que era amiga de Mariana e tudo se embaraçava.
João, mesmo magro, seco e sem aparência, tinha olhos vampirescos, quando sentia vontade de saciar seu apetite inventava de comer o que encasquetasse em sua idéia. Ele era birrento e nada da sua cabeça tirava. Mariana era o alimento fabuloso para os olhos rechonchudo de João. Mariana não sabia que seria a comida de João. Mariana transbordava por Pedro, alto, grande e forte. Mariana transbordou seus olhos de mundo grande por Pedro, mas, Pedro não a observava. Notava Tatiana. Tatiana era amiga de Mariana e sabia que ali era coração derramado de Mariana, então Tatiana tratava de não notar Pedro e Pedro então nem era notado por Tatiana. Mas João que não era título dessa história inventou de desejar Mariana, ou melhor, devorar para encher seus olhos gordos de deleite, comer Mariana inteira.
João não sabia de muita coisa, mas era astuto no querer, sabia da cobiça arquitetada na sua cabeça: João inventou de ser alto, grande e forte para Mariana. João engordou e ficou com aparência de olhos azuis iguais ao de Mariana. João tinha cara de afeto que se leva transbordado. João um dia, viu Mariana chorando por Pedro. João esperto no querer enxugou as lágrimas azuis de Mariana. João a consolou. Mariana, então, notou João. Ele ficou feliz. Agora na alma de Mariana não existia mais Pedro, era João, o menino que a fez secar as lagrimas azuis derramadas por Pedro. Mariana viu afeição em João. Agora era Mariana e João. Mariana viu o encanto... E encasquetou que o encanto se encontrava dentro era de João. Pedro vaidoso sentiu a falta do desejo de Mariana, mesmo gostando de Tatiana. Pedro raivoso foi brigar com João. Mas a briga de Pedro era silenciosa, abafada e infantil a de João era alterada, grossa e desmedida...Um dia eles se encontraram para um duelo: O coração de Mariana. Na hora em que um, ia cravar suas palavras no coração do outro, Tatiana chegou... E Pedro lembrou do seu querer por Tatiana e a quis novamente. Pedro pensou que Mariana poderia ser sim de João. E Tatiana, pensou sim que Mariana poderia ser sim de João. A briga foi encerrada por Tatiana. Pedro e Tatiana se enamoraram. e aí ficou, Mariana E João.
Mariana era toda cor de vento, João era todo cor...cor...cor...João não tinha cor, e então, Mariana, tratou de dar uma cor para ele. João tinha cor de chão. Era um casamento perfeito, nasceriam rosas dali...A água irrigava a terra e tudo ficava fofo e molhado, sementes que caíssem nasceriam flores...Um tempo, muito tempo se passou e João virou o mundo grande dos olhos de Mariana. João agora tinha a cor de olhos mundo grande, João agora tinha cor de água também, João, agora, até, amou Pedro. João era Mariana e Mariana era a beleza de João. Mariana achou de achar beleza em João. Mas, a beleza que Mariana havia encontrado em João, era o encanto dela. Noites se passaram João e Mariana Juntos. Um dia Mariana acordou de uma das noites que se passaram e o olho de João estava de uma cor diferente. João também estava com a cor diferente, uma aparência diferente. Mariana assustou-se e tratou de cuidar de João. Mariana detectou uma doença que se pega de bicho de porco. Mariana medicou João com alfazemas e alecrins.A aparência de João não voltava. Mariana estranhou. Mariana rezou, benzeu, medicou...Mas, João não voltava a sua cor. Um dia Mariana resolveu arrancar seus próprios olhos para dar para João, talvez para dar-lhe aquele brilho tão lindo azul, arrancar sua cor e sua aparência para dar-lhe a João...Mas ele não melhorava. Mariana foi cansando...Cansando...Sofrendo...Preocupada com João... João cada dia mais, ia perdendo a aparência e a cor. Mariana sofreu. Mariana até pensou que tinha pegado a doença de bicho de porco de João. Mas, para sua sorte, Mariana que sempre se banhava de alfazemas e alecrins, tinha uma resistência abundantemente forte e descobriu que só foi um susto e cansaço de ver a aparência de João se desfigurando. Mariana sofreu. Mariana foi buscar uma rezadeira, não podia mais ver o pobre João assim...Saiu de casa e deixou João por alguns minutos a esperar. A rezadeira quando viu Mariana se assustou. Falou para ela que ela tinha dado o olho para João, tinha dado a cor para João, tinha dado o encanto para João...E que nada daquilo que ela estava vendo era de João era dela e sempre dela Mariana assustou-se. Mariana chorou, Mariana Chorou tanto que as lágrimas saiam azuis. A rezadeira gritou: “Suas lágrimas azuis de mundo grande voltaram!!!” Mariana correu para casa, quis olhar para João. Foi um susto. Mariana quando chegou em casa ouviu uma gargalhada feia, um menino sem cor e sem aparência. João estava como bicho de porco se entranhando nos pertences de Mariana.... Mariana assustou-se, Mariana sentiu infortúnio. Mariana chorou tanto causando uma enxurrada azul....E essa foi a historia que começou assim e terminou assim... De lá de dentro da enxurrada de lágrimas azuis formou-se um lago derramado cristalino, abriu-se uma cachoeira, dentro dela saiu um bichinho pequenino e forte, mordeu João e ele se foi. O bichinho sorriu para Mariana e a viu entorpecida. O olho do bichinho era confuso, curioso e fogoso, saia olhar de mundo grande de dentro do olhar do tal bichinho. Mariana não sabe como e porque sentiu aquele bichinho uma parte antes dela mesma, confusa, curiosa e fogosa....Agradeceu o pequenino com alegria e vontade. Vontade do bichinho???? Sorriu com placidez e ternura.Só ternura?Não!! Vontade voraz cuidadosa. E como tudo aconteceu tão de repente na vida de Mariana, de repente...Num ímpeto de acontecimentos por causa da enxurrada ela beijou o pequenino com tamanho desejo e o outro dia nasceu diferente para Mariana e para o bichinho pequenino. Mariana entendeu que tudo isso que ela começou e terminou em sua história, era só para o bichinho entrar...

Meu Tio.

Meu Tio.
A casa estava vazia, um cheiro de coisa proibida no ar. Só eu e ele. Minha tia tinha acabado de sair para o shopping e não tinha horário para retornar. Minha tia amava shopping, isso me tranqüilizava, era a certeza que eu tinha de que ela não retornaria tão cedo. A possibilidade de um grande acontecimento me fazia senti calafrios. Eram 17:00 horas. Esse fim de tarde sempre me deixava excitada. Não sei o que se passava no meu corpo a partir desse horário, só sei que era bom e me fazia senti uma cadelinha querendo cruzar. Ele estava deitado no seu quarto. Um short velho e sem cueca. “ Oi Tio...Posso usar o seu computador?” Minha barriga dava nó de nervosismo...Não conseguia fixar meus olhos nele. “Claro, meu bem!!”. Que resposta mais sem graça e quase ridícula... Entrei no quarto, meu tio continuava sentado com o short velho e pernas abertas. Não podia da bandeira e ficar olhando por dentro do short dele. Meu coração mesmo pulsando de vontade de olhar ele todo, tinha que me comportar. Sentei na frente do computador. Meu tio assistia a um filme. Acho que era de terror. Ouvia aquela "musiqueta" bizarra de suspense, mas, minha concentração tinha que esta voltada para o computador. Liguei a "net "e aí começou o meu plano. "Tio...é...você entende de computador?" " Sim, querida...!!!" Eu odiava quando ele me chamava assim, parecia tão falso e insosso... "O senhor pode me ensinar como é que eu copio um arquivo e mando para uma amiguinha minha?" "claro, querida!!!" Meu tio se levantou e veio até mim. Ele parecia esta com algum desconforto, pois, já havia colocado as mãos dentro do short duas vezes para ajeitar o pau. Ele sentou ao meu lado. Sentir o hálito dele e o desodorante que ele usava. "O que é que você quer que eu envie?" Fiz uma voz de menininha desprotegida..."Aí tio, estou querendo enviar umas fotos minhas e da Malu, para ela porque ela esta querendo colocar no seu álbum de fotos do orkut, você conhece o orkut tio?" Meu tio deu uma risadinha engraçada...'Sim querida... conheço" Abri o álbum de fotos para que pudéssemos enviar o tal arquivo...Meu tio abriu um olho meio esbugalhado e sem graça....Tinham fotos de todo tipo com a minha coleginha. A gente de biquíni, sem blusa, só de calcinha, cobrindo o peito com as mãos e uma eu e minha amiga sentada uma no colo da outra se beijando...rsrsrsr!!! Meu tio parecia muito sem jeito, ele começou a pigarrear...e ...humpf...humpf..."Meu bem posso enviar? Que fotos são essas ? Acha legal colocar fotos dessa forma num álbum que todos vão ver?" "Como assim tio....?" rsrsrs!!! "Eu acho que sua tia pode não gostar QUERIDA"....Olhei para ele, olhei para o seu pau e observei que estava alterado... Quer dizer duro...E bote duro nisso....rsrsrs! "Tio, você esta com vontade de fazer xixi?" ...rsrsr!! Quando observei que ele já estava bem excitado , parti para a outra etapa do plano..."AÍ, AÍ!!" "... O que é Samantha?" "Estou confusa Tio!"Risos..."Acho que, sei lá, não sei se me entende, mas, tem alguma coisa que eu não sei explicar que quando fico perto de você parece que da uma quentura por dentro..."
Há!Há!Há!O homem estava ficando loucooooo..."Tio, olha só, pega aqui no meu coração, vê só como fico..."O meu tio perdeu toda a cabeça...Foi se aproximando de mim...Sua respiração estava arfante...Risos...Meu plano havia funcionado! Sou uma fofa anjo( falseta)...!Arrancou o meu vestido e brincamos ludicamente de forma tio e sobrinha...Risos!
Ludico, Porque ele era o meu tio e o lúdico nunca deixa de acontecer para mim nessas horas...Eu gritei... “Olha o cavalinho...!!!”E montei horrores em cima dele...rsrs..Final Feliz...!! Ou melhor... The And...!!!

Castelo de Pedrinhas

Castelo de Pedrinhas


Desejaria ver aquele sexo dançar. Respiro movimento. Sou um monstro faminto xeretando carne alheia. Como, depois enjôo jogando fora.
Eu morava num castelo de pedrinhas coloridas, onde existia uma pequena tábua ao lado da casa que dividia e separava o meu espaço ao de uma moça que não sabia fazer seu corpo dançar.
No espaço da moça-sem-dança, tudo era seco, parecia não ter cheiro, som e nem cor, aquela condição enervava-me. Seu corpo, dentro de onde ela morava, mostrava-se reservado e endurecido. Eu queria tirar aquele corpo de lá. Minha barriga reclamava fome, precisava comer corpo em agitação.
Respiro ansiosa...
No espaço onde eu moro, existem pedrinhas coloridas que às vezes por uma pontadinha aguda e ousadas das suas posições ferem os meus pés.Deixo-os sangrar para enriquecer as cores, ainda mais, com o vermelho intenso. Queria a moça reservada no meu castelo. Queria ensiná-la a dançar movimento, pisar nas pedrinhas e mastigá-la...digerindo tudo.
Minha pele me reveste de cara de uma boa menina. Essa é a melhor vestimenta que me cabe no armário multifacetado do meu cinismo deslavado. Eu queria a moça reservada brincando no meu castelo, e quem sabe cobri-la de pedrinhas, feito castelinhos que eu brincava em minha infância na praia, escondendo corpos por debaixo da areia. Mas agora a brincadeira era diferente, queria pedrinhas de castelos para cobri-la colorida de furos e agonia, tinha fome de devorar corpos em alteração. Queria cobri-la de pedrinhas pontiagudas fazendo-a contorcer-se pela dor, deixando-a estremecer para sair o movimento. Sua pele sendo penetrada pelas pedras, daria vida, agitação e sons com urros que alegrariam os meus olhos ansiosos por cores e movimentos.

...

No dia em que senti uma fome maior, era primavera e eu venerava sentir as fragrâncias das flores, elas exalavam odores de funeral. O perfume das pétalas acalmava os meus sentidos libertinos. Naquele dia que era primavera, choveu. Os pingos da chuva eram tão fortes, que me cortavam como açoites. A água-açoite me bolinava. A chuva me entranhava. Mas, por desejo natural de paixão instalada, apenas pela moça endurecida, o meu pensamento fixava-se em sua existência, portanto eu usava a água que insistia em me penetrar. Eu estava fervendo pela garota endurecida.

O vendaval-chuvoso estava forte e fogoso, desorganizando tudo, violentando a minha pele com carícias, eu sentia cócegas, mas, não a queria.
A água foi tão intensa com a ventania, que demoliu a tábua que dividia os nossos corpos e espaços. Com despeito a água turbulenta só fez nos aproximar. Eu ri da chuva.
Agora não existia mais afastamento. Gelei.
Tudo se misturou: A casa seca sem cor, fragrância, movimento sem movimento e as pedrinhas coloridas pontiagudas.

A abertura que ficou entre as duas casas fez-me olhá-la: tensa, dura e parada. Ela usava uns óculos escuros, talvez fosse esses artifícios protetores dos olhos, que fazia ela não enxergar a vivacidade das cores.
Ela não fez nenhum movimento ao me ver ali parada, observando-a: petrificada, exaltada e inquieta com o arrebatamento da sua imagem. Durante minutos, que parecia séculos, fiquei a observar. Minha barriga roncava e contorcia-se.
Corri para a minha casa, liguei o som bem alto, tocava uma música que nem era melancólica e nem era amável, não tinha divisões maniqueístas de emoções, apenas era uma música. Eu voltei para o espaço sem divisão e comecei a bailar. Abaixei-me, depositei um punhado de pedrinhas entre as minhas mãos ao som do movimento e fui me aproximando para o espaço da sua casa. A minha barriga roncava alto, misturando-se com o som pulsante sem definição. Estava tudo meio escorregadio, porque a chuva de açoite tinha deixado seus rastros com feridas nos corpos, mas por desprezo dos meus olhos ela havia ido embora. Só o cheiro das flores de primavera-cemitério permanecia perfurando as minhas narinas e talvez as da moça endurecida. Cheguei mais perto dela, abri o punhado de pedrinhas das minhas mãos, e aproximando-me ainda mais dela coloquei o montinho colorido no chão à sua frente. Ela fez uma expressão que significou uma reação curiosa. Minha barriga roncou. Minhas veias ficaram trêmulas e minha voz embargada, chamei-a para dançar. Só ouve um balançar da sua cabeça que dizia um não, mas, coração apaixonado, entendeu como um sim aquele gesto . Então, puxei-a para dançar. Ela fingiu que rejeitou, mas seu corpo que sempre estava tenso e duro amoleceu ao pegar na minha mão e não mentiu no sim do seu desejo. Eu tirei os óculos dela, os seus olhos eram pretos feito duas jabuticabas. “Eu te ensino a dançar”. Disse a ela. A música tocava. Aproximamos os nossos corpos e começamos a balançar. Seus movimentos eram desconexos e escorregadios, acho que a água da chuva havia deixado deslizes no chão. Nossas roupas estavam pesadas dos açoites da água, que por malícia tentou nos possuir e entrar, interromper e se intrometer em uma história que apenas era nossa e sem dizer nada nos despimos do peso da água que ficou na roupa. Agora só éramos nos duas.
Era primavera, a chuva tinha passado, o som era gostoso de ouvir e as pedrinhas existiam no chão, e o seu corpo agora dançava.
Minha barriga roncou atordoada. Fiquei olhando as pedrinhas, abaixei e coloquei aquele punhado pontiagudo na minha mão. Elas me feriam, mas eu Fingia que não doía. Dava uns gritinhos de disfarce, mas era dor das pedrinhas, dor de paixão e dor de fome. Ela finalmente sorriu.
Ofereci as pedras para ela, ela olhava-me com olhos escuros de jabuticaba. Aceitou o punhado das pedras. Minha barriga esfriava e arfava. Ela segurou o punhado colorido olhando-me fortemente. Vagarosamente coloquei as minhas mãos entre as suas e apertei-as bem forte. Ela assustou-se. O sangue vermelho saía por entre seus dedos, a música tocava, o cheiro de flor de cemitério exalava, minha barriga dançava e ela começou a soltar gritinhos e sorrisos que faziam parte da nossa brincadeira de pedras pontiagudas. A dança acelerou-se, porque a música mudou e os nossos estados estavam eufóricos, tão cúmplices e misturados que quisemos girar e gritar por todo aquele pequeno e grande espaço que um dia nos separou. Corremos e dançamos muito. A chuva traiçoeira e enciumada do nosso amor vingou-nos, penetrando sem licença sobre os corpos de nós duas. Quisemos massacrar a chuva. A brincadeira parou. Porque tudo começou a alagar e a vazar. Olhamo-nos. Ouvi um ronco, mas não saía da minha barriga, era o dela, era estridente e sofrido, assustei-me e senti felicidade entendendo a correspondência doida do seu amor. Paradas, extasiadas com o modo audacioso da chuva, chamei-a para minha casa para fugirmos. Corremos até lá, a chuva nos perseguia, juntamos muitas pedras dentro de um saco plástico, a chuva fazendo cócegas em nós, eu amaldiçoando a chuva e a menina-minha gritava para ela ir embora porque a chuva entrava no seu corpo. Com sacos de pedras coloridas entramos na minha casa, mudamos a música, colocamos um som sem definição e começamos novamente a brincadeira, dança, música e pedrinhas coloridas. Nossas barrigas roncaram ao mesmo tempo, sorrimos com cumplicidade. Sabíamos o que queríamos. Cobrimo-nos com pedrinhas coloridas que furavam e penetravam nossos corpos dando cores que fascinavam os nossos olhos. Sangramos sorrindo. As pedras pertenciam a nós duas, começamos a gritar e a uivar pela dor, paixão e pela fome que as nossas barrigas tinham uma da outra. Abraçamo-nos e as pedras foram entrando cada vez mais no nosso peito, furando, beijando-nos, tornado uma imagem de castelo alto de pedrinhas, meninas juntas de vidas coloridas... Até que a outra vida nunca mais tirasse as cores que só eram nossas. Comemos-nos: orelhas, braços, pernas, matamos as nossas fomes e enfim fomos desfalecendo. A chuva enraivecida tornou-se furacão e derrubou tudo como um turbilhão. Restaram a música, o aroma das flores do cemitério e as pedrinhas coloridas que nos levaram coloridas para outro instante.

Cheiro de Estrume

EXPOSIÇÃO DO CONTO CHEIRO DE ESTRUME NO SANTO ANTONIO- SALVADOR

Cheiro de estrume

Cheiro de estrume. Cheiro de coisa velha. Cheiro de porco. Cheiro de gozo fétido. Cheiro de leite podre. Cheiro de suor azedo. Cheiro de hálito batido.... Exalavam no ar os meus 12 anos. O tempo dividia-se em dois: antes dos doze anos e depois dessa idade.
Sangrei. Menstruei. Brincadeiras de bonecas já não podiam existir. Sofri, obriguei-me, era mulher. Agora eu era a boneca das minhas brincadeiras: a Barbie que brincava com o Bob, o Bob que brincava com a Barbie, a Barbie que brincava com a Barbie, o Bob-Barbie-Bob, e todos juntos brincando. Era assim, duplas, triângulos, quartetos ou qualquer coisa e tal. Ele era quase velho, tinha lá seus quarenta anos. Olhava-me. Perturbava-me. Em casa, morávamos eu, minha avó, minha prima e ele, o tio-porco-velho. Babava. Rosnava. Sugava-me com olhos remelados.
Nas tardes gostosas de brincadeiras despretensiosas com malícias inocentes, antes dos doze anos, eu e minha prima nos divertíamos recheando de fantasias aterrorizantes e excitadas a descoberta do mundo. Minha prima era a minha guia, tinha um ano a mais que eu, observava-a. Ensinava-me. Encostava suas partes íntimas em quinas de cadeiras, camas, vasos dos banheiros que rangiam agonizantes de desejos. Balançava-se, esfregava para frente e para trás, com ar sonso e agitado, apresentando coreografia com sons abafados, gemidos preguiçosos, excitantes de se ver. No instante do silêncio ansioso crescente, seu rosto e a sua respiração transfiguravam-se, dilatavam-se, saíam sons murmurantes escondidos que até então eu não conhecia. Cansada depois da coreografia, ela jogava seu corpo no chão, olhava-me e dizia num tom provocador: “Faça igual”. Imitava-a, esfregava, gritava, gemia beijando-a na boca, sorríamos e não falávamos sobre o ocorrido.
Descobrimos o mundo...
Revistas no quarto do tio-porco-velho de pessoas que mostravam seus corpos despidos em posições curiosas. Arrancávamos as páginas e comíamos os papéis. Comíamos partes intimas dos corpos das fotos, digeríamos mijando, sempre. Gostávamos de andar de calcinha pela casa, fazíamos desfiles, enfeitávamo-nos com pedaços dos restos das costuras encomendadas a nossa avó.
Descobrimos o mundo...
A máquina da minha avó não parava o dia inteiro. Meu tio-porco-velho cuidava-nos, rondando com seus olhos arfantes e sua voz que saía engasgada e esmagada, atrapalhado, gesticulando como burro-surdo-mudo a cada travessura que fazíamos. Tínhamos o trunfo nas mãos: ele não podia falar. Zombávamos dele com línguas, invadíamos o seu pequeno mundo castrado pelo desejo interrompido. Era porco-velho.
À noite dormíamos no quarto com minha avó, eram três camas divididas por criados-mudos, iguais ao meu tio. Meu sono era despertado no embalar da noite, gritos ensurdecedores povoavam o abafado de nossa casa, era o vento furioso me chamando. Levantava-me nas noites de insônia, quase zumbótica, atendendo aos seus pedidos mudos de sofreguidão. Ia até o seu quarto, escondia-me. Ele deitado, acorrentado por grades imaginárias, virava porco à meia-noite. Babava. Crescia o que tinha entre as pernas, chorava lágrimas abatidas, soluçava. Fingia que não me via. Eu sorria. Desconfiava do seu mundo sem som e sem voz, achava-o mentiroso. No delírio e no transe, ele me chamava. Sua voz era grossa, sufocada. Tinha nojo, cuspia. As noites, antes dos doze anos, moviam-se por desejos castrados pelo medo do meu tio porco de me entregar e falar. Tinha o trunfo: a voz. Eu, medo dele, vomitava. Provocava...
Sopro úmido e obscuro...
Cheiro de tempo passando. Cheiro de sangue. Cheiro de mulher. Cheiro de gosma. Cheiro de coagulação. Menstruei. Minha prima, sendo um ano mais velha, invejou-me, enciumou. Não era mulher ainda. Feto. Rejeitei-a. Achei-a boba para a minha mocidade. O que me restava a fazer era descobrir a outra parte do mundo sozinha, na solidão dos desejos. Era mulher. Estava no cio. Andava composta pela casa com roupas que cobriam as partes íntimas. O primeiro sutiã escondia as pedrinhas bicudas audaciosas que apontavam para a vida, comportava-me como uma cadelinha formosa. Meu tio porco-velho era cão farejador. Sempre que sangrava, ele me seguia como cachorro que quer lamber o rabo. Eu o enxotava. Aos gritos, ele saía rosnando com as mãos apertando suas partes íntimas que cresciam por entre os calções fedidos e velhos.
Era a terceira vez em minha vida que eu sangrava, algo estranho começou a pulsar dentro de mim, queria preencher uma coisa lá dentro. Assustei-me. Repeti as coreografias bem decoradas várias vezes, melei minha mão de sangue, cheirei, estranhei. Gozei pouco. Queria mais. Doía. Pensava no porco-velho, tinha nojo, vomitei. Gozei pobre. Fui dormir, a noite chegou. Perturbada pelo desejo latejante, por gritos abafados do vento furioso, fui chamada pelo rugido surdo e mudo apavorado do tio-porco-velho. Levantei-me cautelosamente, fui me arrastando como uma cobra, queria dar o bote. Como de costume, atrás da porta, observei-o. Seus membros cresciam, toquei-me. Sentia confusão, nojo, desejo. Queria ele. Abri a porta. Seus olhos arregalaram-se, ficaram estatelados me olhando, sua mão era enorme, não maior que os seus membros arroxeados, que eram friccionados num movimento arfante de cima para baixo. Fitei-o. Ficamos nos encarando como num duelo raivoso durante um tempo. Furor e desejo. Seus dentes começaram a crescer, seu cu transfigurou-se num rabo, suas orelhas se deformaram. Ele babava. Virou porco-velho. Possuída, incendiada, arranquei a calcinha do corpo, gritei, ordenei: “Chupe, lamba tudo seu porco-velho”. Ele meteu a língua e focinho por entre minhas coxas, sugou, bebeu. Misturando saliva e sangue que escorriam da sua boca, ele falou: “Eu nunca fui surdo-mudo sua puta-porca, abra a perna vou te meter”. Abri a perna, ele enfiou, eu comecei a chorar salgado. Ele lambeu ardendo-se do sal.

terça-feira, 10 de março de 2009

Branca De Neve


Branca de Neve

Eu era a branca de neve, ela era a domadora de leão. Estávamos sob situação de perigo provocador: o desejo dilacerador do leão e a neve que derretia de mim, afogando o bicho inundado pelo pântano. O mato abria-se fundo, escuro desconhecido. Inundava com força de enxurrada. O leão debatia-se feito bicho perdido assustado.
O bicho raivoso com o sangue latejante nas têmporas instalava-se dentro da domadora. Fugiu. Ele tinha grade, quebrou-a sob impulso desordenado. Queria escapar do perigo provocador. A domadora tentava dominá-lo, estava enfurecido, queria devorar a branca da neve. Eu derretia, deixando a polpa faiscante e luzidia aberta tremulando ao olhar cortante do leão. Entre as pernas brancas de neve, o pântano escorria pegajoso, cobrindo-me até os pés, com o corpo palpitante suavemente ofegava respirando. A domadora apavorava-se, tentando controlar o bicho raivoso. Usou estratégias paralisantes, teorizou, controlou, racionalizou, embaralhada, perdia, desesperando-se. O leão, embriagado pela fúria inundada do pântano, aumentava o seu ardor, temendo a morte. O cheiro rio do pântano exalava entre as narinas do leão, atormentando seus sentidos violentos. O leão possuía desejo furioso, tinha sede, tinha água, queria beber, mas duvidava, não sabia nadar. O suco derramado, viscoso incolor, cobria o matagal que derretia. O bicho enfurecido, cheio de sede, queria beber o líquido, secar. A domadora segurava a fera sobre chicotes de racionalidade, seu desejo crepitante. Prendia-o. Amordaçava. O desejo contido do leão era maior, vencia a luta dominadora.
Eu, sem lutar com a força da natureza, empalidecia rendendo-me ao leão, estava consternada pelo desejo, sabia que ia me afogar, não tinha como nadar. Entreguei-me. Afundei. Com as pernas entreabertas, tentei boiar, deixei-me levar pela onda do líquido. O leão desesperado foi coberto pelo fluido viscoso da neve, branca de neve. Dentro do pântano, o leão engoliu água ardente que era inflamada pelo fogo que acendia nossos corpos. Com a língua perdida e calor nas têmporas, sugava o líquido buscando sobrevivência, atrapalhava-se, não sabia como se salvar do perigo, já havia afogado. Lambeu, bebeu, sugou. Eu sussurrava mortificada, recebia com desejo ansioso a língua-socorro do leão-perigo. Sem saber como parar o rio corrente, que transbordava entre as nossas pernas, o leão, com fervor, aumentou sua boca, colocando todo o líquido do pântano até a goela. Eu gemia, espasmava e murmurava ar agitado, perdendo o fôlego, debruçada sob a língua que sugava o pântano. A água que os cobria começou a jorrar mais forte dentro da boca enorme do bicho e a estalar. Uma montanha rosada com aspecto de flor foi tomada de água, inchando-se, dilatando, respondendo ao desejo de natureza mexida. Perdido, sem mais hesitar, entregou-se, metendo a boca ferozmente na coisa rosada. Eu gritei exaltada. Buscando ar, segurei o bicho raivoso entre minhas pernas brancas, sufocando a juba grande. O leão sugou fortemente a enxurrada que vazava entre seus dentes, eu o segurava. Instintivamente, o bicho feroz abocanhou o perigo devorando-me com toda velocidade, enfiou toda sua pata entre as pernas brancas e traiçoeiramente, mordeu, comeu-me. Debati-me gemendo mortificada. Agora violentado pelo desejo perigoso, com o sangue zumbido e o calor aumentando, escorrendo suor pela cara, sua boca espumando desejo excitado, empalideceu, gemeu num constante crescente debatendo-se. Engoliu a coisa branca viscosa. E com fúria veloz possuído de alegria corajosa, urrou violentamente demarcando o seu território salvador.

Vende-se Quiabo

VENDE-SE QUIABO


Aquele dia... Foi quando o meu coração começou a bater mais forte, olhei para a placa e estava lá escrito em minha frente: vende-se quiabo. Na feira todo mundo é camarada, a labuta é igual para todos, lá abre madrugando o dia. Acordamos com as galinhas, corremos atrás do tempo para que ele não escureça e vá embora mais cedo. Minha mãe sempre me disse que homem que dorme demais não vence na vida e que as galinha é amiga dos homens e o relógio de Deus. Eu nunca que entendi como as galinha era amiga de Deus, mas como foi mainha que disse, a verdade então estava dita e ponto.
Eu era homem feito, 29 anos de estrada, quando senti essas coisa meio doida de aborrecer a cabeça e o juízo. Sentia uma dor que eu não sabia como dizer, mas não era dor de corpo, era dor de alma e eu nunca que tinha ouvido falar em dor de alma. Mainha morreu no meu aniversário, eu tava só no mundo, não conheci meu pai. Mainha me falava desde cedo que ele tinha ido embora, porque tava doente da moral, e tinha ido se cuidar. Até hoje não sei nada dele e se já ficou bom.
De manhã, quando eu acordava, fazia tudo o que era de costume. Os ensinamentos de minha mãe eu levo pra vida toda. O sonho de mainha era de um dia eu saber ler aquelas placas grandes que ficava na rua roubando os olhos de quem ás vezes nem queria ver. Tem até um nome para isso... Agora num lembro. Que coisa mais doida de profissão, roubava os nossos olhos de verdade! Eu acho que um dia queria fazer isso de roubar os olhos de toda gente.
A dor de alma aumentava a cada dia, a feira era o único lugar onde eu recostava a minha dor e ela parecia ir embora. O dia em que mainha me deixou nunca que esqueci: ela tava deitada na cama, tinha tosse de cachorro, acho que pegou de Lolita, a cadelinha da vizinha que todo dia vinha comer o pratinho que eu e mainha fazia para ela. Lolita morreu. Fiquei triste. Minha mãe, como sempre, me explicava que todo mundo tem sua vida traçada e sua hora. Às vezes eu ficava era doidinho pensando quando é que a tal da dona morte ia me levar. Pedia a Deus que ela não viesse tão cedo, eu não gostava dela. Mainha sorria sempre quando eu falava disso, ela era corajosa e nunca que teve medo de nada. Eu acho que a única coisa que doía em mainha era ela não saber ler as placas que ficavam escrita na rua e não saber escrever o meu e o seu nome.
Um dia, bateu na minha porta um rapaz bem apessoado, dizendo que trabalhava contando quantas pessoas existiam onde a gente morava. Eu achava que era doidice e ficava matutando para entender como ele contava tanta gente num mundo que mainha dizia que era tão grande! Também pensei em um dia poder contar o quanto de gente que existia no mundo... eu ficava pensando o que era maior: o número de gente ou o tamanho do mundo? Meu Deus, eu acho que tenho é certeza que o número de gente deve ser maior, toda hora eu vejo gente em todo lugar: na rua, em casa, prédio, até no lixo e na ponte. Acho que deve ter pouca terra para esse mundo de gente, não tem terra pra fazer casa para todo mundo. Mas mainha dizia outra coisa que atrapalhava a minha cachola: “Deus é tão alto que nunca que ninguém vai alcançar os olho dele. Ele vê é tudo porque o mundo é muito do grande, igualzinho a ele! Os Homem que não sabe disso leva toda terra com ele, mas Deus é maior e vê tudo de cima”. Sempre acreditava nas palavras dela, mas isso era ruim pra entender. Eu ficava pensando que eles não davam as terra para os que não tinha era porque o mundo tava pequeno demais para esse tanto de gente, e não porque não queria.
No dia que o rapaz que contava gente no mundo chegou, ele mostrou a mainha como que era as letras que escrevia o meu nome e o dela: “É assim, dona Nair: N-A-I-R. E seu filho é R-A-Y-M-U-N-D-O”. Nunca que minha mãe perdeu esse papel. Aquele dia que dona morte chegou e levou mainha, ela tava segurando forte o papel dos nomes e me disse: “Meu filho, vou te contar um segredo. Um dia sua vó me disse que existia um tesouro no mundo, mas que pra achar, a pessoa tinha que saber as letra que mostrava onde tava o baú do tesouro. Sua mãe tava era buscando o tesouro, mas aí acho que me perdi do caminho quando conheci seu pai, ele disse que mulher dele não tinha que tá procurando tesouro e essas coisa de saber letra. Aí depois de um tempo você nasceu e seu pai ficou doente da moral e foi embora, fui esquecendo de encontrar o tesouro onde as letra tava guardada e aí não achei foi mais. O tesouro diz é tudo desse mundo que é tão grande...! Mundy (era assim que ela me chamava), vá buscar para sua mãe o tesouro que tem o segredo das letra. Vou tá vendo você lá de cima, nos braços de Deus, e dando é risada de felicidade! Se lembra que te disse que ele era grande?!”. E foi aí que mainha fechou os olho. Nesse dia que senti uma dor tão grande, mas que não era no corpo. Conversei com o meu camarada da feira, Zé Augusto, e ele me mandou procurar a mãe dele que era dona de uma farmácia e entendia de dor de gente, de tudo que é tipo. “Raymundo, você está com uma dor na alma de saudade de sua mãe, precisa encontrar um motivo para viver melhor”. A dor de alma não tinha remédio que curasse, eu ficava dia e noite matutando o que podia melhorar a minha dor.
Já fazia um monte de tempo que mainha tinha ido morar com Deus, acho que já virei o ano diferente duas vezes sem minha mãe. Um dia aconteceu uma coisa muito bonita. Eu tava na feira, na minha barraca de quiabo, quando Rosa apareceu. Ela era bonita feito gente de novela, tão doce que parecia fazer massagem naquela dor de alma que sentia há tempo sem sarar. “Por favor, você pode me dar um centro de quiabo?”. “Sim, claro!”. Nesse dia, não sei o que foi, mas o meu coração bateu mais forte e meu estômago embrulhou. Acho que entendi o que meu coração e meu estômago tava querendo me dizer: eu tava era apaixonado! Chegava cedo na feira, como de costume, e ficava buscando todo o tempo Rosa com meus olho.
Uma tarde, lá na feira, ela chegou linda, de vestidinho solto no corpo, o que mostrava que era uma menina de família. “Oi! ...é..... Aqui só vende quiabo?”. Eu fiquei com medo de dizer que sim e ela nunca mais aparecer. “Não, não... é que tá tudo em falta”. Ela sorriu para mim e me perguntou: “Como é que é o seu nome?”. Eu quase gaguejando respondi: “Ray... mundo”. Ela sorriu mais uma vez: “Escreve para mim seu nome, para eu guardar comigo, como se fosse foto que a gente guarda...”. Fiquei sem graça e embaraçado, falei: “Eu estou procurando o baú do tesouro que guarda as letra, mas ainda não achei. Quando eu encontrar, te mostro tudo o que tá escrito nas letra”. “E tu sabe como vai buscar esse tal de baú?”. Foi aí que descobri que Rosa tinha me mostrado o que os meus olho tava teimando em num ver. Eu precisava buscar onde é que tava esse tal de tesouro escondido.
Eu já tava há um tempo com Rosa, a gente buscava o tesouro junto, já que ela queria descobrir os segredos das letra comigo. Teve um dia que foi um dos mais importantes de minha vida. Rosa chegou gritando em casa: “Eu encontrei Dico (era assim que ela me chamava) onde tá o tal do tesouro!”. Meus olho ficaram foi brilhando naquele dia! Fazia era tempo que eu e ela procurava o tal do baú, eu já tava com os meus 38 anos e ela 32: “Ô bicho burro é o homem, às vezes tá tudo de baixo do nosso nariz e a gente empaca e num vê”. Rosa chegou gritando: “Tá aqui pertinho Dico, é enorme. Acho que vai ser é difícil da gente desembrulhar....”. Mas não foi nada difícil da gente desembrulhar o baú.
Então, como em toda história existe um homem bom, nessa também existiu. Foi quando o moço que contava gente no mundo resolveu voltar, cumprindo a promessa que um dia fez a dona Nair. Foi para a feira, na barraca de quiabo de Raymundo, e encontrou Rosa. Lá eles conversaram tudo e ele explicou para Rosa quem ele era e o que tinha vindo fazer aqui. No dia que ele bateu na minha porta mais uma vez, tive um sentimento bom de que chegava um amigo. Lembrei do segredo que ele tinha comigo... Lembrei também do dia que ele apareceu pela primeira vez e ficou meu amigo e de mainha, naquele dia que ele apareceu na porta de minha mãe perguntando um monte de coisa! Fiquei até um pouco aperriado, não gostava desse negócio de gente que não conheço saber de minha vida. O moço perguntava tudo e eu e minha mãe respondia tudo também. “Por favor, dona Nair e seu Raymundo, grau de escolaridade?”. “Não sei, não senhor, esse negócios de letra”. Foi nesse dia que eu ouvi baixinho mainha falando de um tal de tesouro: “Pois é, seu moço que conta gente, eu tava era buscando o tal do tesouro, mas aí...”. Ouvi tudo o que eles falavam, mas mainha dizia que era feio ficar de olho na conversa dos outros, e então apaguei de minha cachola o que eu achei que tinha ouvido e nunca mais quis lembrar, até mainha me revelar sua antiga procura das letra e Rosa aparecer! O homem que contava gente gostou foi demais da gente. Ganhamos um amigo, o que era uma das coisas que mainha dizia ser mais rica na vida. “Tchau, dona Nair e Seu Raymundo. Obrigado pelo cafezinho, um dia eu volto”. E foi aí que se desenrolou o presente e se sucedeu a história. Ele voltou e.... a descoberta do baú.
Eu tava em casa, era hora do almoço. Bateram na porta. “Atende aí Dico, é um moço que conta gente no mundo, que disse lá na feira que vinha aqui. Ele disse que era seu amigo”. E foi assim que senhor José (era assim que o moço que contava gente no mundo se chamava), apareceu mais uma vez. Ele entrou, sentou e tomou cafezinho com a gente. Contei que mainha tinha ido morar com Deus e que Rosa era toda a riqueza que eu tinha na vida agora. “Eu voltei, Raymundo, para cumprir a promessa que um dia fiz a sua mãe. Rosa me contou que vocês estão procurando o tesouro!”. Aí foi que tudo se clareou na minha cabeça... Lembrei do dia que ele prometeu a minha mãe de achar o tal do tesouro. E me recordei daquela cena dele vendo que eu ouvi o que ele e mainha diziam. Ele sorriu para mim, naquele dia, e fez que não viu que eu tinha ouvido sem querer o que mainha falava. Entendi, naquele dia, que ele era o meu amigo e que ia guardar o meu segredo. Ele viu que eu vi, mas fingiu que não viu, esse era amigo de verdade!
Naquele dia que ele voltou. Seu José contou para mim e para Rosa uma bela história. Falou que existia um menininho que um dia quis conhecer o mundo todo, mas esse menininho não sabia como começar, e aí um dia uma “fadinha” veio e mostrou que, pra começar uma aventura, ele teria que decifrar o que tava escrito num papel que ela tinha acabado de entregar para ele. O menininho sorriu e disse: “O que tem escrito, não sei ler?” . Foi aí que esse menininho percebeu que para ele desbravar o mundo, tinha que entender o que tava escrito no papel. O menininho perguntou para a “fadinha” como é que se começava a aprender aquelas coisa que tava no papel, e foi aí que a fadinha respondeu: “Para aprender a ler, basta estar com o coração aberto a mente atenta e se deixar viajar... Quando você menos perceber, estará desbravando o mundo e viajando por ele todo! A leitura te leva para onde você quiser!”. Seu José disse que hoje o menininho trabalha como um servidor público do IBGE, conhecendo todo tipo de gente, de história, viajando muito e ajudando muita gente como um dia o menininho foi ajudado! Fiquei foi contente, aquele dia entendi a mensagem e o fim da história: seu José era o menininho e tava agora era viajando pelo mundo todo com as letra!
Foi nesse dia, com meu amigo José, que pisei pela primeira vez numa escola. Era grande como Rosa tinha falado, fiquei pensando como seria difícil desenrolar aquele troço que era tão grande.... Mas não foi difícil, não! Foi isso que aconteceu com as letra. Eu e Rosa aprendemos fácil a entender as placa que tavam escrita nas rua, a nossa mente tava atenta pra tudo o que o professor ensinava, conheci tudo que é letra! Tinha umas com uns nome engraçado como quê: Agá, Xis, Jota....
O mundo realmente era grande demais para esse tanto de gente que tinha na rua, na ponte, no lixo.... eu agora que entendia a matemática do mundo: o mundo é grande e tem terra para todo mundo, tem mais tamanho de terra do que tanto de gente, então isso quer dizer que tem terra para todo mundo, que doidice! Matemática mais errada.... muita terra pra uns e terra nenhuma pra outros, bem que mainha disse: “Deus é grande e Vê tudo!”. Quem decifra as letra entende o mundo!
No dia em que aprendi a ler... Aquele dia... foi quando o meu coração começou a bater mais forte, olhei para a placa e estava lá escrito em minha frente: VENDE-SE QUIABO. Eu agora, de braços abertos, descobria o mundo das letras e tudo se abria na minha cabeça: a matemática errada das terras, as placas, até a dor de alma...Tudo! O mundo novo se abria para eu poder entrar com Rosa, feliz, e lá de cima eu ouvia minha mãe dizendo: “Entre mais, Mundy! Você pode ir onde quiser e caminhar sempre na placa que indica: pra frente! E ser o que quiser! Você sempre num quis roubar os olhos de toda gente?”. Foi nesse dia que lá do alto eu ouvi minha mãe sorrindo nos braços de Deus e entendi que ele era grande demais, como ela tinha dito, e que o mundo era sem fim igual a ele. Agora só me faltava viajar no mundo sem fim das letras e descobrir um monte de coisa sobre ele. E foi depois da alfabetização que escrevi essa minha história, para que eu pudesse sempre roubar os olhos de toda a gente.

A Moça Esquecida


A Moça Esquecida

A Santa coberta por um véu começou a chorar. Escorria sangue dos seus olhos, eram lágrimas abatidas de enlevo.
O anjo arrebatado pairou sob a escuridão e ficou a observando a moça deitada no canto do logradouro. Aproximou-se e sussurrou com hálito candente no ouvido da mulher provocando a perturbação do isolamento.
Encontrava-se perdida pelas ruas da cidade. Ela repartia sua moradia com pedaços de carniça a sua volta. Os animais que moravam na sua mesma condição, vez ou outra, iam alimentar-se dos restos das carniças que rondavam o seu corpo esquecido. Era quase um cadáver de tão esquálida.
Seu corpo apático e bruto ignorava o purgatório. Não reagia a aflição.
Naquela noite porque era domingo sua carne brandiu, seus restos mortais ainda estavam intensos. Uma ventania desmantelava a sua penugem. Provou o frescor afagando a volúpia. Porque era domingo e domingo era dia do vento gritar seu nome: “Domingas” sentiu o arrebatamento do ar invadindo sua vulva. O anjo com hálito quente começou a enfiar sua língua molhada no ouvido da moça perdida. Ela ensopou. Sua boca entreabriu, começando a espumar. Aquela ocorrência era uma espécie de convulsão deleitosa. O anjo começou a tocá-la vagarosamente acalorando todas as suas partes. Seus pelos arrepiavam excitados. Virou-se de bruços, oferecendo seu ânus. Os animais que rondavam a escuridão dos cantos da cidade pararam espantados com tamanho estupor. Maravilharam-se. Os bichos uivavam, miavam e latiam. Os seus sexos dilataram. O anjo atiçado abriu suas asas e pôs-se a entranhar profundo no traseiro da moça. Ela começou a gritar freneticamente: “Eu sou filha do pai, ah se eu soubesse!”
Os bichos que circulavam próximo a mulher aproximaram-se porque sentiram o cheiro forte que alastrava a carniça que os alimentavam. Mas naquele dia era carniça suculenta. Ah tempos Domingas não banhava sua vulva. Exalava um perfume forte que amimavam os animalejos. Ferozmente começaram a atracar-se disputando a carniça. A moça deleitou-se agonizando. O anjo tentou defendê-la dos bichos mas, um cão ferino destroçou com ligeireza decepando os membros do anjo. Ele desabou endurecido no chão. A moça entrou num transe, era somente ela e o seu corpo. Fremia. Sentiu o seu corpo pela primeira vez porque era Domingo e domingo era o dia do seu nome. Ela gozou expurgando todo xixi guardado. Os cachorros animados balançavam seus rabos lambendo o mijo e penetrando Domingas. Porque era domingo, arreganhou a boca escancarando apenas um dente, gargalhando espantada de contentamento. E sem saber a quem gritar, agradeceu o seu regozijo a atmosfera ocasionando uma trepidação em seu espaço: “Domingas”. Do buraco causado pelo tremor uma santa saiu coberta por um véu chorando lágrimas de sangue. A santa aproximou-se da cena e carregou o anjo. A mulher perdida entorpeceu extasiada naquele momento. O anjo acordou abrindo suas asas enormes e voou carregando a santa em seu colo. Lá no alto voltaram seus olhos para Domingas, enfeitiçados soltaram um ar de néctar ditoso e a abençoaram a moça esquecida.