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terça-feira, 31 de março de 2009

Diário: Banheiro Fantasticamente Fabuloso!


DIÁRIO: BANHEIRO FANTÁSTICO...

Era lá no banheiro onde eu conseguia desvendar cada parte do que eu sou. Quando eu era pequena o banheiro era o meu melhor amigo. Eu transportava o meu mundo todo para lá. Era aquele espaço; amigo-quarto-baú, pedaços do meu corpo.
Naquele lugar eu descobria o meu mundo a cada momento em que ele se renovava...
Eu lembro, quando foi à primeira vez que eu olhei para o objeto mais intrigante e provocador que me atraia; A PRIVADA. Foi como imã que ela me puxou. Imaginei sua quina, sua beirada...Pensei que ela poderia me proporcionar prazeres encantadores...Não sei como foi esse encontro...Eu e a privada...Sei que aos pouquinhos fui agachando o meu corpinho pequeno, sete anos, enganchando o meu sexo à beirada...Lembro que comecei a balançar...Era como um brinquedo, um balança-balança...Acho que tinha a mistura de algo delicioso e ao mesmo tempo podre...Onde, talvez, eu misturasse tudo...
O gozo...Mijo...A descarga...Descarregar...Descarregando tudo...
A quina era dura e doía um pouco, mas, passava...Passava...Isso acontecia repetidas vezes...Fiquei viciada pela privada...Lembro, também, de quando eu terminava, eu me sentia tão abominável que eu rezava, apesar de nunca ter sido católica devota...Mas, eu rezava...Quando eu abria a porta do banheiro fantástico....Encarava a casa...Saia do mundo da magia podre e lúdica dos meus segredos... E reinava diferente no mundo real...Fiz do banheiro fantástico, meu fiel escudeiro...Cheio de possibilidades inusitadas na minha triste-alegre cabecinha...
Descobri no banheiro... Uma das casas mais fabulosas da Barbie...Era fantástico...!!
Digo isso porque quando eu era menor que sete ou quase sete anos...Eu tinha o sonho de ter a coleção inteira da Barbie...De ter um casarão da Barbie...Mas, era tudo muito caro...Meus pais não tinham condições...Pedia para o meu pai e ele dizia; “Filha porque não escreve para Silvio Santos, o programa“Porta da Esperança” e pede a coleção inteira?” Eu ficava horas imaginando duas cenas: Eu lá em Silvio Santos numa expectativa tremenda esperando...A porta se abrindo...Ele lendo minha cartinha... a porta se abrindo...Aquela coisa toda...Aiiiiii!!!!A coleção TODA da Barbie...!!!Ou...A versão mais pessimista...A porta se abrindo e Silvio Santos fazendo: OOOOOOOOOOOOh!! Seria uma decepção...!!
Acho que eu não arriscava meus sonhos por medo da decepção...
Então...O banheiro me entendia...
Ele virou meu casarão da Barbie...! Lembro da arquitetura montada por mim: O chuveiro era uma cachoeira enorme, dentro da casa fechada por vidros maravilhosos...Lembro que a pia era uma banheira- piscina...Eu colocava shampoo bastante...Isso era um horror porque minha mãe não entendia como o Shampoo acabava tão rápido...Ela reclamava... Eu silenciava...Ela não entendia a profundidade...A Barbie precisava daquela piscina-banheira...! Os armários do banheiro...Eram salas de televisão, eu tirava tudo que tinha dentro...Eu pegava as toalhas e fazia de sofá...Ficavam lindos e aconchegantes super...Os quartos eram no chão...Era dividido...Tinha o quarto da Barbie e do Bob e tinha o quarto dos filhos; Eles tinham seis filhos. Era engraçado porque os filhos eram bem diferentes...Era um casal da “Família Coração” da Barbie mesmo, eram os caçulas, e tinham os irmãos...Uma Chuquinha, Umas gêmeas, eram duas bonequinhas de cabelos bem pretos, espanholas que eu e a minha irmã havíamos ganhado... E tinha o menino...Era o agarradinho...Eu era louca por ele...Ele era horroroso e eu o achava lindo...Lembro o nome dele: João Daniel...! Coloque esse nome porque fiquei um tempo fã de uma cantora que o seu filho se chamava João Daniel...Então, tive que colocar o nome do meu agarradinho João Daniel...!
As brincadeiras se revezavam no banheiro...Eu tinha um palhaço, tão lindinho e monstruoso, ele tinha duas caras o safado...O nome dele era Brinca-Bronca, veio com esse nome...O nariz desse palhaço...Fazia-me cócegas...
No banheiro eu fui crescendo...O tempo ia passando...Era lá onde eu chorava também...Era lá onde eu fazia os meus dramas reais e imaginários...Lembro, eu chorando, me olhando no espelho para ver como era o meu choro...Lembro, quando eu brigava com minha irmã...Eu entrava lá correndo, trancava a porta e depois eu dava um grito enooooooooooormeeeee de pavor para ela achar que eu me matei...Eu lembro, ela gritando...Batendo na porta...Eu sofria por dois motivos: Um se fosse verdade...Que coisa horrível...!E dois, porque minha irmã ficava desesperada...Isso era tão rápido, que a porta do banheiro abria-se logo. Eu era a maior fã da minha irmã...Talvez, eu fizesse isso para chamá-la atenção quando a gente brigava...(Um parêntese para falar de minha irmã) Quando a gente era pequena eu era uma criança que não gostava de um monte de coisas...Tinha umas coisas que eu achava lindo gostar, mas, a porcaria do meu paladar não gostava...Minha irmã comia goiabada com queijo...Eu detestava...Mas, era tão lindo vê-la comer...Aí eu comia, mesmo detestando, só para ficar igual! Tinha água de coco que ela tomava, eu não gostava...Mas, fazia de tudo para beber...O pior de tudo era que a minha irmã me revelava sempre para mim mesma: “Você não gosta de goiabada com queijo e nem de água de coco, só faz isso para me imitar...” Eu sofria.
Minhas outras lembranças do banheiro, essas eram as partes suicidas...Quando eu brigava com meus irmãos ou meus pais...Eu entrava no banheiro e fazia uma carta de despedida de suicídio...Era sempre assim que começava: “Me matei porque não pude resisti a tal agressão...” Mas, no final da carta era tão triste imaginar meus pais e meus irmãos sofrendo, eu no caixão, eu sofria tanto...Chorava tanto, que logo em seguida eu os perdoava...Porque imaginava esse acontecimento...Aí, não queria nada disso...Saia do banheiro...Eles estranhavam...Meus olhos inchados, mas, eu os abraçava com saudade da possível tragédia e já estava tudo bem e perdoado no meu coração...!
O Banheiro era também meu lugar de danças e paixões...Eu tinha uma amiga que sempre ia ao banheiro comigo....Ela se requebrava toda...Eu colocava um som...Música... E ficava a vendo dançar...Sentava na latrina, era a platéia...! Um dia, essa menina dançou tanto, jogando suas pernas finas para um lado e para outro...De tanto dançar como uma gazela doida...Ela jogou sua perna no porta papel-higiênico e quebrou o porta-papel...Tive que assumi a culpa que não era minha...Ela ficou sem jeito...Minha mãe desconfiou de algo a mais...Mas... Nada a revelar, éramos amigas APENAS de requebrados dançantes...
O banheiro e a privada já me traíram uma vez...Fiquei bem magoada...Eu tinha seis anos, vontade de fazer xixi, pronta para escola...Corri. O corredor estava molhado, não tinha visto...Escorreguei...Eu estava com um copo de vidro na mão...Minha cabeça foi para a fechadura...Quebrou: A cabeça; O copo bateu no chão...Bateu na privada e não quebrou...Minha cabeça quebrou...
Fiquei magoada com o banheiro...Mas, passou...Passou...Passou...
Meus doze anos...Fiquei menstruada....Foi estranho...Esse dia eu estava na casa de minha melhor amiguinha, naquela época, brincando de Barbie...Cheguei em casa...Minha irmã estava tomando banho, fui fazer xixi...Aí...Uma coisa marrom em minha calcinha...Olhei, observei...Perguntei a minha irmã “você sabe se eu fiz cocô hoje?” Ela me respondeu rindo e com impaciência: “Como eu vou saber até do seu cocô...?? ” Cheirei a calcinha...Não tinha cheiro de cocô...Fiz a retrospectiva do meu dia...Aí falei.... “Tem uma coisa estranha marrom na minha calcinha...” Ela gritou com felicidade estranha. Figura estranha minha irmã nessa comemoração: ”Está menstruadaaaaaaaa...!!!” Tomei um susto!!Fiquei feliz e triste ao mesmo tempo...Estava virando uma mulher e não queria e queria...Meu primeiro pensamento foi: “Como uma mulher brinca de bonecas, de Barbie?” Pânico total!! Eu era VI-CI-A-DA nas Barbies, na quina da latrina, no palhaço Brinca-Bronca...Que complicação...Lembro de mim conversando com minha melhor amiguinha, dizendo a ela que eu já era uma mulher e brincar de bonecas eu não tinha mais vontade...Triste...Porque era mentira...Eu cortei relação com as minhas Barbies sem nem ao menos ter me despedido delas...Triste...Triste...
Lembro das revelações CHO-CAN-TES no banheiro...Era época de Natal...Eu estava muito ansiosa para a chegada do meu presente...Descobri uma revelação que abalou o meu mundo...PAPAI NOEL NÃO EXISTIA...Chorei, corri para o banheiro, minha irmã ouviu, era um choro de dor, de traição...Ela correu, abri a porta...Falei: “PAPAI NOEL NÃO EXITE, VOCÊ SABIA????” Ela tentou disfarçar...Me chateei porque nesse momento vi a cara dela de mentira...Ai pedi a verdade...Lembro a voz que ecoou em mim...”É ISSO, PAPAI NOEL NÃO EXISTE....” “NÃOOOOOOOOOOOOOO!!”. Chorei muito, mas, superei a bomba.
Outra revelação, terrivelmente, essa libidinosa...Meu irmão...Lembro, ele deveria ter uns 16 anos...Na escola ele tinha uma namoradinha...Minhas amigas falavam...”Seu irmão deve transar com a namorada dele MUITO”. Eu achava aquilo um absurdo, eu tinha plena convicção da virgindade do meu irmão...Tinha plena convicção da certeza das suas palavras...Ele dizia para minha mãe que ia ao cinema...Claro que eu achava que ele ia...Essas acusações da virgindade do meu irmão duraram e me perturbaram por um tempo...As minhas amigas até criaram apelido para ele, para mim, claro, “Virgilio”...Eu sofria. Resolvi esclarecer essa dúvida...Sempre com a minha irmã, a que me revelava tudo....Chamei ela no banheiro e baixinho perguntei: ”Ele é virgem não é??”. Ela rindo falou: “Claro que não, boba...” Sofri, mas, tive que aceitar aquela mentira do meu irmão. Fiquei dias olhando para ele diferente...Mas, passou.
O banheiro...Uma passagem para o mundo do circo, do teatro, da dança...O banheiro, Uma passagem para perdas...O banheiro uma passagem para remodelar o mundo...
Quando a arte entrou em minha vida e eu entrei na arte... Tinham umas pessoas que eu admirava de formas diferenciadas...Essas pessoas viraram amigos-amigas, casos-fieis imaginários na minha história...Essas pessoas existiam...Mas, eu nem me aproximava muito delas, era fabuloso tê-las de mentirinha no banheiro do meu teatro ou no teatro do meu banheiro...Tinha uma menina que era especial...Duas contas azuis nos olhos...Eu a beijava sempre...Tinha um menino, que eu adorava imaginar a gente tendo um caso super complicado, o nome dele imaginário era: Totila. Ele tinha cara desse nome, mas pena, não se chamava assim. Eu lembro das festas imaginárias que eu fazia no banheiro...Essa menina de olho azul sempre estava...Tinham outras figuras também...Eram festas louquíssimas...Todo mundo ficava com todo mundo...Um som alto...Mas, o que acontecia sempre em seguida a festa imaginária do cabide...Minha mãe...Batia na porta e dizia “Está alto o som” Me enraivava...Porque aí o mundo fantástico caia na real...
Parte da remodelação visceral: O banheiro foi meu companheiro fiel quando perdi uma coisa tão linda-anjo em minha vida. O banheiro segurou a minha dor...Foi nessa virada...O peito em sangue.... Que o banheiro me soprou o mergulho para o mundo...Foi depois da perda do Anjo...Ele era o meu guardião de belezas puras na vida. Nessas virada, o banheiro me falou: ”Corre para o teatro, corre para o circo, corre para a dança...” Aí corri para TUDO atirando... O Banheiro Chorou comigo me dando colo sempre... Chorou comigo uma menina especial que tinha por apelido Minhoquinha...Ela era a Minhoquinha mais linda e pura que desistiu de viver... Ela me deixou a palavra ENCANTO em tudo...Também, chorei por um menino que requebrava como ninguém....Chorei um tio, chorei uma tia, chorei outra tia, chorei meu Dindo, chorei...Mas, o banheiro me dizia que a vida se remodelava...
REMODELEI.
Foi aí que virei...Me remodelando...
Lembro do banheiro eu ensaiando peças, lembro do banheiro me soprando meus desejos dúbios: “João ou Maria ? ” ...Lembro no banheiro minha virada para ser mulher...Meu cabelo, minha cara mudando, pessoas que não existiam entrando, dor do novo.... Outras saindo, dor do velho...Lembro, no banheiro o vômito, o choro, o amadurecimento, os cortes, as descobertas, a vida, o íntimo, inusitado... Lembro no banheiro eu pulando... Um novo ar entrando, uma brisa...Meu corpo se transformando, minha pele esbranquiçando, meu cabelo mudando...O mundo se remodelando...Eu sendo “certa”, ambígua, arte, brisa na cara, eu sendo sempre com ele...Livre...
Foi lá no banheiro que encontrei a chave para tudo...No banheiro fabuloso dos meus sonhos secretos...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Uma Casinha Dentro do Vazio

"Meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser grande... Seria tão bom, como já foi"(Adélia Prado)

“ UMA CASINHA DENTRO DO VAZIO “


Era uma casinha de madeira.O queimor do sol esquentava o volante do meu carro. A casinha pequena de madeira ficava dentro de um vazio. A estrada estava pouco movimentada. A tarde o sol queimava o meu rosto dentro do carro.
Eu ali sentado fitava no cantinho da estrada o rostinho da menina de vestido rasgado. Ela era ruiva , seu cabelo misturava-se com a claridade do sol, seu rostinho era avermelhado. Ela destoava da imagem da casinha no meio do nada. A menina de vestido rasgado tinha um olhar curioso.
Eu estava a mais de uma hora parado esperando o socorro do guincho que havia me prometido chegar em 30 minutos no máximo.O sol queimava o meu relógio marcando o tempo que eu olhava a menininha do vestido rasgado, o tempo parecia correr sem demora.
A menininha estava sentada, parecia um improviso de cadeira, uma tábua em cima de um monte de tijolos. Ela segurava entre os seus braços uma boneca de plástico velha. O vestido da boneca era de noiva.
O meu celular , graças á Deus, estava dando linha normalmente :"Essas operadoras não servem para nada”. A menininha abraçava a sua bonequinha vestida de noiva , beijando-a inúmeras vezes. Ela sussurrava baixinho. Eu não conseguia ouvir o que ela queria dizer para a bonequinha.
Meu celular tocou pela quarta vez. Era o guincho me avisando que dentro de 5 minutos eles chegariam com o socorro. Meu carro estava apenas com um pneu de socorro. Eu vinha a 120km/h , estava atrasado para a reunião do meu trabalho. Eu já á quase duas horas esperando o guincho que não chegava comecei a senti uma sede insuportável. A única coisa que me fazia não mandar o guincho se fuder era a menininha do vestido rasgado e também a necessidade que eu tinha deles.
Meu carro estourou o pneu num buraco ,”Isso não é nem mais um buraco..uma cratera”.”Não sei o que o governo faz com o dinheiro...As estradas todas esburacadas...”.
Meu celular tocou, era o meu chefe.A menininha não havia me percebido. Sua casinha ficava com pouca visibilidade. De cima para baixo. A casa ficava num montinho de barro. Não era tão alto. Eu estava num cantinho da estrada. A menininha não tirava o olho da bonequinha vestida de noiva .
O telefone tocou. Eram 17:30.O sol daqui a pouquinho iria embora.No telefone meu chefe já veio com aquela voz chata me cobrando uma presença, que eu não tinha o que fazer. Não gostava do meu chefe. Ele gostava de me chacualhar, acho que era porque ele era gordo e mal casado. Meu chefe gostava de falar que homem de corpo malhado era coisa de veado. Acho que era inveja.
O telefono tocou era o guincho. Eles disseram que já estavam a caminho..."Que cara de pau...quer dizer que antes eles nem haviam se mobilizado”.
O sol começou a diminuir. Eram 17:50, embrei que eu tinha uma garrafa de água na mala do carro.
A menininha que estava sentada o tempo todo levantou-se e começou a dançar e a rodar. Ela sorria e gargalhava alto.
O guincho chegou na mesma hora que o meu celular tocou E A MENININHA ME VIU.
Eram 18:40.Uma única labareda iluminava a menininha que agora me fitava. Desliguei meu celular. Mandei o guincho se fuder, coloquei meu pé no acelerador lentamente e fui me afastando da casinha de madeira no meio do nada. Ela deu um adeus e gritou com uma voz grossa e rouca:"VOLTE PARA CASAR UM DIA COMIGO”. Eu nunca mais esqueci a menininha do vestido rasgado.
Voltei para casa. Abri uma cerveja gelada e comecei a dançar e a cantar a música que a menininha do vestido rasgado havia entoado.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Flores...

"MINHA ORQUÍDEA!"



Flores...
Sentindo os cheiro de aromas... Resolvi entregar flores para...
Um rapaz forte, feliz e passageiro, como pássaro, entreguei para ele a flor Clematite...Nela eu via a beleza espiritual que eu absorvia de todo aquele amor eterno...Colhendo outra flor, procurei para uma moça que me guardou em nove meses no seu ventre, linda, amiga e companheira... Entreguei para ela o amor verdadeiro... Era uma flor Miosótis (não-me-esqueças)...Cheiro a todo instante essa flor, para reconfortar minha alma...! Colhi em mais jardins, outros, para dois amores perfeitos, eram almas de escorpiãos não venenosos...Eram nascidos da mesma barriga que eu havia nascido, compartilhávamos as flores Clematite e Miosótis, a vida toda sempre, ofereci para o menino a flor de Prímula era à flor da juventude...Eu o via sempre menino, mesmo sendo homem formado e forte...Entreguei para a menina uma rosa esse era um amor sossegado, o amor que se instala cheirando cheiro de transformações juntas sempre...Colhi mais flores...Entreguei para quatro pequenos pimpolhos que se instalaram fortemente no meu coração...Colhi, quatro, Nenúfar, uma pureza de coração e coloquei no jarro florescendo sorrindo...Coloquei essas flores no meu jardim eterno... Elas por graças nasceram no meu jardim biológico...Busquei mais flores...Essas por escolha quis cheirar e tocar...Peguei uma flor de orquídea, uma bela dama, dei a ela, porque era esguia, branda e guardava todos os cheiros meus, porque eu queria muito que ela guardasse com cuidado quando eu não podia cuidar...Ela cuidava...Colhi, também, uma flor de harmonia, Flox, era isso que eu pretendia com uma moça de olhos de piscina azul, ela era o meu lado mais voraz...Um leão...Colhi flores para uma flor exagerada, desmantelada no amor... Entreguei-a um jasmim com graça e elegância...Talvez porque naquele desmantelamento, eu só visse amor pulsante de graça...Entreguei flores para uma menina que vivia na terra e que pegou a minha mão me mostrando a beleza de ser terrena...Entreguei a ela um lírio porque eu sentia algo puro e terno por ela...Colhi um buquê de flores para umas moças... Duas moças libra, uma moça aquário e uma moça escorpião...Porque elas eram histórias de adolescências contadas e engraçadas de vida... Entreguei para elas a minha sensibilidade sempre Centáurea...Elas cheiram até sempre...Porque exala forte...Colhi flores atrapalhadas... Genciana uma flor injusta ela me espetou sempre...Mas, eu cuidava da flor de forma trazendo os meus espinhos iguais... Não queria mostrá-los...Doía...Hoje eu purifico a flor...Para torná-la um dia justa...Subia um cheiro de atração dessa flor...Colhi, também, um jacinto era uma flor de mágoas...Tentei regá-la, mas, por eu ter derramado água demais nessa flor...Aguou e desandou... Ficou feia...Tento cuidar dela para sair um dia flores de lembranças leves...Colhi uma flor para uma paixão de sonho, uma vontade voraz de vivê-lo sempre...Uma flor de Hera, uma flor linda de fidelidade, para que eu nunca mais o esquecesse por causa de flores outras...Peguei uma flor de extravagância fantástica, Papoula, senti um cheiro de amizade sorridente, só não sei se ela entendeu...Colhi um oráculo, Dente-de-Leão...Queria ver o que se passava no cheiro daquela flor que eu não conseguia tocar...Vontade de prever o futuro com a flor no meu jardim....Recolhi no jardim das minhas idéias outras flores tantas...Peguei uma coroa imperial, ela exalava majestade e poder, me inspirava vendo sua realeza...Peguei uma flor branda de índole meiga, era uma Madressilva...Ofereci para um menino calmo e não calmo que me fez olhar o mundo diferente...Colhi para guardar para mim flores de íris, mensagens boas, Lilás, primeiras emoções do amor, Campainha, flor de perseverança e Malva-rosa, Ambição feminina, com uma dose de Violeta, modéstia...Estava com minhas mãos recheadas de flores...Peguei uma tigela cristalina, coloquei alfazema e me banhei toda dessas flores até renascer florescendo...
"Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio - nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência"
(Inês Pedrosa)

E Foi Porque Eu Cismei de Querer você que Você Apareceu

CONTO LIDO NO TOM DO SABER POR: Olga Lamas, Rita Aquino e Sandra Simões!












E foi porque eu cismei de querer você que você apareceu...!
Nesse mundo doido onde se encontra tantas “quereranças”, querências, quereres... Quero, queria, quererei, queremos, queres, quereis, querem....
Eu quero.... Escrever uma história...
Uma nova história!
Digo nova porque eu tenho hábitos de brincar de ser escritora visionaria biônica da vida...Eu tenho força malandra brincante do jogo da vida. Escrevo histórias antes contadas em contos, e que depois são narradas em cantos...Mas, não é canto de cantidão, cantiga, “cantura” de música... É canto de canto de rua, canto de beco, canto de boca....De gente que não sabe contar outros contos...Também, culpada sou eu, esqueci de avisar que os cantos, digo, os contos mudaram para outros cantos...Contos..
Então, para que eu ou essa gente conte outro conto em outros cantos inventarei a minha mais nova história...Porque sei que o que escrevo é matéria boa de que acontece...
Peço licença para esse mundo vasto de tantas “quereranças” nos cantos e começo o meu mais novo conto:
Resolvi começar o conto assim...
Resolvi porque tinha uma menina branca de risada vibrante cabelo pequeno e corpo macio me irritando...
Era uma vez uma menina que me irritava com ternura...Ela entrou nas “quereranças” dos quereres tantos... Assim ??????????????.
Eu tinha um cabelo alongado que cobria o meu rosto, eu acho que o deixava assim, porque tinha medo de deixá-lo nu... Medo ou pudor? ...A nudez do rosto aberto é a mais obscena, causa gozo voluptuoso quando se penetram os olhos...
Encurtei o cabelo, desnudei-me, resolvi enxergar...
O cabelo longo cobria meu rosto e também me atrapalhava de andar...
Meu corpo estava duro, Porque o cabelo alongado que cobria os meus olhos não enxergava a dureza do corpo...E como conseqüência do encurtamento do cabelo, vi o meu corpo...E resolvi amolecer..
Meu corpo foi ficando impudico, afeminado, libertino... Uma afobação... ...Eu era corpo afobado e cabelo encurtado... Desnudada....
Olhei-me no espelho...
E foi porque eu cismei de querer você que você apareceu....
Não sei se a inventei, mas, que menina branca, corpo macio, sorriso vibrante... Existe e é real existe..
No espelho...Eu via a menina branca irritadamente... Com ternura ela me entrava...Eu via cabelos encurtado, cara branca e corpo mole audaciosamente entrando...Não sei se era a minha imagem, ou se era a menina que irritava...Mas, o fato contado nesse conto para contarem nos cantos existiu assim:
Um dia o mundo virou de cabeça para baixo, como eu gosto de plantar bananeira, acrobacia atrai o meu corpo, consegui me salvar da nova geografia em que o mundo se configurava...O meu cabelo como havia também se encurtado não cobriu o meu olho na hora de ficar de cabeça para baixo... A sensação era diferente, uma liberdade equilibrista! Eu era a maior acrobata da nova ordem do mundo crescido...!!!
Eu via um monte de gente caindo como um temporal, via casas também caindo...Tudo isso porque as casas, as pessoas não tinham aprendido que de repente o mundo cansa de ficar em uma só posição... Cansa... Então eu como nunca fui boba, tratei sempre de me preparar acrobaticamente...Para essa nova geografia mundial...Intuição? Sensação? Vontade? Não sei...Só sei que nessa hora...Consegui colocar toda a malandragem do corpo mole, numa firmeza equilibrista...
Eu lembro que na hora da virada do mundo, uma menina branca de corpo mole e sorriso vibrante, com travessura encantada segurou as minhas pernas e fizemos bases de rolamentos acrobáticos incríveis...Eu rolava e ela me segurava, ela rolava e eu a segurava...Toda essa giratória era acompanhada da sua alegre risada que alisava o meu peito...Eu acelerava na acrobacia e ela sorria branco dizendo: você é rápida....Eu acelerava na acrobacia e ela dizia: Eu gosto de observar os movimentos de cada corpo...Eu acelerava mais ainda na acrobacia e ela dizia: Agora eu seguro em sua cabeça e você segura o meu braço...POOOOOOOOOOOOOOOWWW!!!Parei, digo, paramos de dar cambalhotas acrobáticas...Risos vibrantes brancos moles!!!
E o mundo se configurou em sua nova ordem...!!!
Nos olhamos...Os cabelos curtos estampados nas caras brancas, os corpos moles entranhados nas acrobacias da vida, e os olhos...Os olhos...Os olhos...Tinham cores de pupilas dilatadas...Talvez fosse porque, quando se desperta por um encanto, a cor visionária (visão) ficam cores dilatadas...As pupilas eram cores misturadas, nuas e leves...Olhei, fui olhada, me olharam...Estava na nudez de cara....De cara...Cara....Risos...Parei...Paramos...
Como é o seu nome?
Éééééé...éééééé....Começa ou termina com Tá...Com o Tá????...Começa ou termina?
Depende....!! Mas, é só TÁ? Coloque também, i ou a ou a ou i...Mas, o a ou i e o i ou a, qual seria a ordem?Depende da posição em que vamos nos configurar na geografia novo mundo...Sorrisos vibrantes aparecem...!!!
Então eu posso te chamar de TÁ ou i ou a ou a ou i...Na ordem que eu quiser...SIMMM, sua boba...
Eu lembro que nas “quereranças” dos quereres tantos, por que quereres são tantos eu olhei a menina e a quis um pouquinho ou toda dentro de mim...Toda e um pouquinho...Toda por que é minha e um pouquinho por que é dela ela...Juntei pertinho, pertinho..E sem avisar nada dei uma pirueta num sobressalto, ela no mesmo momento, deu várias bem grandes...Foi aí na pirueta que eu senti um gosto doce novo de línguas que se prendiam...Eram línguas que se prendiam, mas se desenrolavam nas levezas das piruetas...
No mundo com sua nova geografia...Eu vi a gente que conta meus contos em cantos...Embaralharem-se como cartas porque não sabiam fazer acrobacias...Risos...E como eu tinha dito antes, sou uma escritora visionária biônica da vida...
Resolvi pegar as cartas... Talvez para ler...Já que tenho o dom...Risos brancos no meu peito agora....Eu recolhi-as com jogo de cartas...Distribui um montinho para mim e para....O nome dela, ela...Tá no inicio ou no fim...?.Cartas, gente cartas...E abri um jogo de escritora visionaria e comecei a ler as cartas das gentes...Li, reli...Quanta confusão...Embaralhei...As moças de caras brancas repartiram montes de cartas gentes... Ai eu comecei a ler...
Ela que me irritava com ternura me parou e disse: por que não escreve um conto em vez de ler as cartas montes gentes...Os contos são bem mais atraentes....
E foi Porque eu Cismei de Querer Você que você apareceu....
Eu estou já escrevendo um conto, para ser contada nos cantos, mas não é canto de cantura, de cantiga...É canto de canto de rua, canto de boca de gente...Certo....?Larguei as gentes cartas, os montinhos, tirei da mão da menina que me irritava e comecei a ler o meu mais novo conto...
Olha, meus contos é matéria boa de que acontece...A gente pode agora falar para essa gente que os contos mudaram ...
E o conto começa assim: E foi porque eu cismei de querer você que você apareceu...
O final é assim: Eu entro na lona circo do mundo, subo na cama elástica, dou piruetas, vou para a corda bamba, depois arrisco no trapézio, ando de monociclo, faço contorcionismo com o corpo mole, me seguro na corda, equilibro objetos...eto...jetos...Eles já estão sendo equilibrados...ados...Olho para o palhaço, gargalho da sua risada, desconfio do coelho do mágico, cuspo fogo de desejos, atiro facas, sou bailarina...E você dança....
Pode ser contos cantados em cantos, certo...?
Dancei contado, digo cantando, novos contos...
IRRITADAMENTE COM TERNURA ELA ME ENTROU...

Yemanja e Oxossi

Yemanja e Oxossi

Eu estava sentada e os meus pés não alcançavam o chão. Absorta em meus pensamentos escutava o mistério da ocasião. O céu permanecia repleto de sol, do alto eu avistava o braço do mar carregando barquinhos recheados de flores avivadas que se tornavam pequenos pela distância do terraço. Saborear a beirada do abismo é de um encanto intenso. As polpas das minhas nádegas encostavam-se no cimento abrasador do lajedo envelhecido daquele prédio, experimentando um quentinho protetor. Eu ficava agitando minha razão achincalhando a brisa aguda que desordenava o meu cabelo, desorganizando minhas idéias. O terraço daquele edifício inflamava o sigilo particular de um afeto adocicado, alojado por ocorrências desastrosas. Ela usava uma sapatilha colorida. Sentou-se ao meu lado, não éramos amigas por um limite tênue, quem sabe, desconhecimento das possibilidades. Meus pés abandonados á ausência de um plano, balançavam-se embalando canção sincera. Ficamos contemplando aquela vastidão de oceano. A menina que usava uma sapatilha colorida ajeitava-se desordenadamente segurando seus cabelos que eram embaralhados pela ventania. O segredo reprimido daquela provável afeição abafava as demonstrações soltas. O ar fogoso brincava com os nossos cabelos. Era faceto assisti aquela liberdade de ternura sincera por um acanhado segundo. O sol estava alentado. O braço da maré que abrigava os barquinhos abriu-se fazendo os pequeninos nadarem entregando as oferendas que carregavam para a rainha do mar. Era dois de fevereiro. Permanecemos sentadas envolvidas do terraço, do mar e dos barquinhos. A menina de sapatilhas coloridas invadiu a quietude do tempo dissolvendo em palavras derramadas a transparência da imaginável amizade: “Os meus orixás são Yemanja e oxóssi e os seus? ” .Naquele instante desvendei a placidez do apego de sermos amigas ocultas. Tínhamos algo muito forte semelhante. “Yemanja e oxossi também”. Sorrimos com embaraço e poesia porque lá no encovado sentimento sabíamos que éramos atrativos de afinidades caladas, mesmo que ainda não tivéssemos experimentado as tais das possibilidades. Ensaiei a minha primeira frase: “Deixe os seus cabelos soltos é natural abandonar o vento e deixar desmantelar nossa juba”. Os barquinhos soltaram fogos afetados saindo flores coloridas de dentro dos rojões. As flores confundiram o ar deixando-o com uma coloração encantada, pairando sob as nossas cabeças despeças. Eu levantei os meus braços e alcancei a flor que tinha cor branca e azul. Apanhei a florzinha intimamente e por alegria sortida ela estava grávida de uma semente. Pensei em um nascimento. Entreguei à semente a menina da sapatilha colorida e aspirei ao principio de um vasto carinho de amizade, só não sei se ela percebeu o afeto infantil.

Quarto Escuro

Quarto Escuro

Entrou correndo no quarto escuro. O pequeno espaço ficava no fundo de sua casa num lugar desprestigiado, onde não passeava o vento. O cubículo não tinha teto. Mesmo sem cobertura, a lua naquele dia não apareceu e as estrelas foram tomadas pelo cinza das nuvens. O céu estava carregado sob a cabeça do menino preto. Ele tinha a responsabilidade de banhar os cinco cachorros que moravam quase ao seu lado. Recebia uma quantia mínima que mal dava para sobreviver. O menino era preto. Apenas seus olhos esbugalhados pelo contorno branco clareavam a visão da menina cheia de objetos.
Ela foi entrando com hostilidade de menina dura, criada sem amor pela secura de seus pais. Talvez ela fosse tão seca pelo fato de nunca ter experimentado o amor. Era histérica e estridente. Seus gritos tentavam preencher o vazio de sua casa. Seus pais que não tinha tempo para ela, regavam-na de objetos. A casa era tão mobiliada que nem dava espaço para que seus familiares se cruzassem.
A porta do quarto escuro estava entreaberta. Ela invadiu com silêncio espantado. O menino preto, deitado em sua cama levantou assustado.
Ficaram se olhando durante algum tempo. A escuridão protegia-os. Seus sexos estavam contidos. Parecia doer. Na escuridão do quarto, só se ouviam as respirações arfantes. A menina cheia de objetos, com hostilidade e secura, aproximou-se do negrinho. As nuvens cinza tornavam o céu fechado e incompreensível, igual ao menino preto. Ele a encarava com olhar assombrado. Com aflição, a menina começou a espernear. Não aprendeu a falar. Só sabia se comunicar aos berros. Tinha todos os objetos. E aquela noite desejou aquele menino-peça também. Aquela falta de claridade entre ambos a enraivecia. O menino ficou exaltado e começou a correr pelo pequeno espaço. A menina estonteada ensaiou as primeiras palavras. A frase saia sufocada e estrídula: “Estou podre”. Ele paralisou ouvindo a roupa do corpo da menina, que era rasgada com ligeireza. Ela abriu as pernas e começou a se tocar. O odor invadiu o quarto. Tinha o cheiro de ostra e maresia. Ela repetia: “Estou podre”. O menino preto começou a se morder. Naquela escuridão, o choro engasgado do menino começou a povoar o quarto. Seu sexo estava enlevado. Com urgência precipitada ele avançou para cima da menina. Arrancou o short e segurou forte o seu pênis. Com alegria acelerada encaixou suas partes dentro do odor que ardia. Como cão célere, enfiou enterrando o roxo. As nuvens começaram a se mover e ficarem esparsas, a lua acendeu escancarando o mistério cinza do céu. A luz entrava no quarto do menino preto. Fazia tempo que ele não conhecia a limpidez da noite. Seus corpos nus e suados reluziam o brilho da claridade que um dia foi perdido na noite. Sem saber como falar o que sentiam, apenas se amaram. Ficaram enlaçados melados pelo desejo. Entorpeceram. A noite passou e os cachorros começaram a latir. Era a hora do menino se levantar e assumir suas responsabilidades porque ele era o menino preto. E a menina cheia de objetos voltou para casa. Aos berros, com seus cabelos desmantelados, correu até seus pais e pela primeira vez os abraçaram dando um bom dia escancarando os dentes.

Olhos Vazios

Olhos vazios

Seios firmes. Sangue zumbindo. Polpa entreaberta. Paralisava o meu corpo, extasiada de olhar vazio.
O calor dos corpos abrasa o meu sexo. O sangue coagula fervendo. Queimo. Meu íntimo lateja com brutalidade fálica de uma mulher febril. Vontade de colocar o imundo quente esporrado entre minhas pernas. Meu sexo grita furioso. Rastejo. Respiro buscando fôlego. Meus olhos reviram engolindo corpos acesos.
Ele tinha um ar sonso. Seu corpo descomposto espreguiçava sensualidade. Ondas preguiçosas. O mar estava manso. O suor escorria pelo rosto do menino desvalido. Pessoas esparsas vagavam na imensidão da areia branca. O brilho do sol insuportável fazia inflamar o meu desejo.
Aquele corpo exalava uma fragrância que dava pena respirar. Cheiro de promessa desastrosa. Estonteada pela provocação sexual que o menino espalhava, incendiei em chamas.
O ar estava cada vez mais agitado, misturando-se ao calor interior do meu corpo febril. O menino desvalido com short velho molhado de sal, sem perceber, mostrava a vibração enrijecida dos seus músculos distendidos. Tinha o olhar triste. Parecia aspirar o nada. Esse vazio e esse nada transmitidos pelo seu olhar distante enfureciam-me.
Meu pensamento ventilava seu corpo.
O menino vazio não saía da mesma posição. Corpo de costas para o mar, membros apontados penetrando a boca do céu. Eu, parada, convulsionava, querendo aquele corpo dentro de mim.
Um sopro obscuro uivava forte em meus pensamentos. Gritava minha consciência libertadora: “A bondade estagna a ação”. Agonizava.
Foi então que, enlouquecida por pensamentos anuviados, arranquei os pedaços de pano que cobriam o meu corpo e senti a liberdade infantil grotesca refrescando minha carne.
O meu sexo gritava. Tremia minha carne. Corri até o menino de olhos vazios, ele olhou-me e apenas disse: “Estou com frio”. Só deu tempo de ouvir essas ultimas palavras, porque naquela imensidão de areia e mar quente, o frio existe.
Por instinto cruel, devorei-o. Com uma pedrada na cabeça, seu sangue escorreu repartindo os olhos vazios. Ejaculei feliz.
Então, cheia de menino vazio, chorei feliz, voltando para casa. E o mar preguiçoso caiu em sonolência.

Esse-Meu-Corpo

Esse - Meu-Corpo

A noite passou... Até que o meu mundo se pôs.
O dia resvalava alaranjado. O galo cocoricou anunciando o céu cheio de sol. E o calor aumentando, escorrendo sob o meu rosto. Vozes distantes cortavam o silêncio, desembalando o meu sono.
Eu, cautelosa, estonteada pela fragrância doce-azeda, era invadida por entre o quarto e as narinas, derretendo-me deitada sob o colchão molhado, escondendo o “meu-esse” corpo que esquentava o desejo vazio escorrido nas minhas pernas. Imóvel, alheia ao mundo, admirava o tempo das cores. Ele passava consumindo-me, fulgurante de calor. A medida do tempo era marcada pela transmutação de cores que reluziam invadindo a fresta da minha janela: alaranjava para azular. Esquentava, aquecida num calado fervor.
Entendia o tempo, prostrada e entregue a ele. Despertava. Meu quarto, extensão do meu corpo, era invadido pela claridade do sol, que acendia a fresta aberta sob silêncio de castidade, suspiros, sussurros e gritos agudos, afobados, provocando erupções expelidas pelos dedos das mãos. Acordava-o aceso. “Ele” era meu, o corpo, e a ninguém mais pertencia. Enciumava olhares audaciosos sobre ele. Como num ritual, afundada no desejo, provocava-o rotineiramente, atiçando o fogo. O ritual começava.
Primeiro, com as mãos calejadas do movimento repetitivo do dia e da noite anterior, iniciava comprimindo e apertando o que se guardava já molhado-seco por entre minhas coxas. Alisava, ansiava e arfava, estava perto. Não ousava ainda tocar. Descobri. Provocava-me. Era assim, meu-esse corpo crepitava, ardia queimando-me, pedindo a invasão ousada dos dedos. Com belo jogo de provocação, não rendia ou cedia aos seus apelos instantaneamente. Deitada, inundada pelo feito na noite anterior - cama molhada, vagina molhada e desejo molhado -, provocava-o. Era assim o meu tempo, cores clareando ou escurecendo. Eu, deitada, observava as mudanças noturnas e diurnas das cores, repetindo a brincadeira. Afogava-me de mim por mim mesma.
Segundo, as vozes cortantes que vinham de fora invadindo o meu quarto criavam o frisson da possibilidade de ser flagrada com as mãos sobre ele. Excitava-me a intimidade escancarada. Inundada de mim começava a me bulinar. Enfiava vagarosamente os dedos por dentro da calcinha que abafava o meu sexo molhado. Alisava. Arfava. Endurecia aumentando. Passava a mão na textura rosada, movia.
Terceiro, eu, sem dizer nada para esse-corpo, maltratava-o. Parava na metade de sua vontade, desesperando-o. Jogava. Provocava. Ele pulsava agonizando. Posicionava-me em frente a um espelho que me olhava. Apreciava-o. Pegava-o bruscamente como meu serviçal e o esfregava, mostrando-o ao espelho, zombado de sua vontade de mim. Eu era a cafetina. Os suspiros começavam: gemidos, grunhidos tomavam o silêncio penoso do meu quarto, que era cortado apenas por vozes de fora. Incendiada de desejo, rendia piedosamente aos meus-seus apelos. Despia-o, observando. Sentia-me responsável, sedutora do desejo que o desejo tinha do corpo. Terceiro ritual, aos pouquinhos, contemplando a imagem posta em frente ao espelho tocava com mansidão exaltada de um profissional experiente. Começava a tocar mais forte, mordia os braços, lambia as pernas, era gato contorcionando-se para alcançar o desejo latejante. Acelerava os dedos. Gemia.
Uns passos de alguém da família aproximavam-se. A intimidade invadida, observada por outro incendiava o desejo, tentava tapar a sua boca, esfregava o rosado no espelho gelado, queria comê-lo, possuir, era meu. Passos próximos eram ouvidos. Eu arfava enciumando, acelerava os dedos. Minha tia chegou, debati inundando-me. Ela parada, as pestana dos olhos petrificada maravilhada com o corpo, suspirou gemendo soltando barulhos estridentes e com as mãos abafava o som que saia perturbado pela imagem do corpo. Ela desesperada com urgência foi para cima de mim. Enciumei o corpo. Agarrei o espelho, ele era meu e a ninguém pertencia, minha tia em cima de mim, o espelho quebrou cortando o rosado, um mar vermelho jorrou agitado, minha boca espumou, minha tia empalidecida no seu silêncio espantado agarrou-me bruscamente chorando e lambendo o sangue feliz de contentamento.

"Não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar."
(Clarice Lispector)